Sexta-feira, 14 de dezembro de 2018 -
Opinião

Barra Direto / SERGIO CINTRA

07/12/2016 23:55:00

Um pouco acima do chão

Não foi uma tragédia como a dos jogadores da Chape, jornalistas, tripulação, enfim, do fatídico voo da LaMia 2933, que vitimou 76 pessoas; não haverá ilações sobre o significado de Lâmia (a devoradora de homens), mas morreu, domingo, 04 de dezembro, José Ribamar Ferreira, o Ferreira Gullar, poeta, ensaísta, crítico literário, memorialista, dramaturgo, tradutor e, principalmente, um dos fundadores do Neoconcretismo, que vaticinou: “A Arte existe, porque a vida não basta”. Sua morte é uma tragédia para a literatura brasileira e mundial.

Em sua (última) opinião para o caderno “Ilustrada” (Folha de São Paulo), Gullar faz reflexões sobre Marx, capital, trabalho e, especialmente sobre solidariedade: “Há que se reconhecer que, sem o trabalhador não se produz riqueza, sem o empreendedor também não”. “... de fato, ninguém necessita de acumular fortunas fantásticas para ser feliz”.  “A sociedade não necessita ser irretorquivelmente igualitária, mesmo porque as pessoas não são iguais”. O autor de “Dentro da Noite Veloz” revê, pela derradeira vez, os conceitos marxistas que há muito não refletiam a realidade, nem a práxis comunista e nem sua visão política.

A questão não é de rótulos: socialista, marxista, revisionista, esquerda, direita etc. Não se pode analisar nada, nem ninguém fora de contexto ou de seu tempo. E, sobretudo, é preciso respeitar um homem que viveu de 1930 até 2016. Nesses 86 anos o país e o mundo mudaram radicalmente e o poeta assistiu a tudo, não só assistiu como também participou de momentos cruciais da história. Ele viu de dentro e em “(A) Luta Corporal” o surgimento do Concretismo, do Neoconcretismo, o getulismo, a Guerra Fria, o Populismo, a Ditadura Militar, o Neocolonialismo,  a queda do Muro de Berlim, o fim URSS, a Globalização e a Modernidade Líquida. Isso tudo lhe dá direito a equívocos: “Extraviei-me no tempo./
Onde estarão meus pedaços?/ Muito se foi com os amigos/que já não ouvem nem falam” (Extravio).

Ainda sobre o artigo de opinião deste último domingo, ressaltou-se do texto de José Ribamar o seguinte trecho: “Para que alguém necessita a sua disposição milhões e milhões de dólares? Para jantar à tripa fora?” O que teria querido dizer com “à tripa fora” o imortal que não quisera sê-lo? Será que esperava que incautos como eu o questionassem, ou, (quem o saberá), o cérebro já cansado lhe pregou a postrema peça? Teria ele escrito “à tripa-forra” ( expressão portuguesa usada com o sentido de “comer abundantemente, fartar-se, até não poder mais”) e o revisor resolveu alterar? Talvez dissesse: - à tripa fora, à tripa forra ou à tripa-forra, que importância tem?!

Há tanto pra dizer... à memória vem “O preço do feijão/
não cabe no poema./ O preço do arroz/  não cabe no poema./ (...)/Só cabe no poema/
o homem sem estômago/ a mulher de nuvens/ a fruta sem preço/ O poema, senhores,/ não fede/nem cheira.” (“Não há vagas”, escrito em 1963 e o Brasil, mais de cinquenta anos depois, continua o mesmo).  Se a crise econômica se arrasta até nossos dias, arrastam-se também os dilemas existenciais: “Uma parte de mim/ é multidão:/ outra parte estranheza/ e solidão./ Uma parte de mim/ pesa ,pondera:/ outra parte/ delira./(...)/ Uma parte de mim/ é permanente:/ outra parte/ se sabe de repente./ (...) Traduzir-se uma parte/ na outra parte/ –que é uma questão/ de vida ou morte–/ será arte?” (Traduzir-se, imortalizado na voz de Raimundo Fagner).

Ferreira Gullar ensina-nos no poema Aprendizado: “Do mesmo modo que te abriste à alegria/
abre-te agora ao sofrimento/ que é fruto dela/ e seu avesso ardente. /(...)/ que a vida só consome/ o que a alimenta”. Ao ouvir O Trenzinho do Caipira (Villa-Lobos), fez essa letra que resume tudo: “Lá vai o trem com o menino/ Lá vai a vida a rodar/ Lá vai ciranda e destino/ Cidade noite a girar/ Lá vai o trem sem destino/ Pro dia novo encontrar/(...) Correndo entre as estrelas a voar/No ar, no ar, no ar...”.  E o trem da “indesejada das gentes” levou o menino José Ribamar.  

Sérgio Cintra é professor de Linguagens e está servidor público da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

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