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Cultura

Barra Direto com RD News / RODIVALDO RIBEIRO

16/04/2017 12:29:00

Páscoa é festa de milênios e origem remonta tempos pré judaico-cristão

Reprodução

Filme A Paixão de Cristo retrata de maneira crua os últimos dias de Jesus. A ceia de Páscoa inclusive.

Comemorada, de acordo com o Calendário Gregoriano (promulgado pelo Papa Gregório XIII, em fevereiro de 1582 e em uso na maior parte do ocidente desde então), 40 dias após a Quarta-feira de Cinzas (quando as palmas do Domingo de Ramos do ano anterior eram queimadas e passadas nas testas dos fieis na Igreja Primitiva), a Páscoa é uma festa judaica ressignificada pelo catolicismo como festa de celebração da ascensão de Jesus Cristo aos céus após vencer a perseguição, a tortura e a morte. 

Na liturgia católica, é o período em que os cristãos são convidados a imitar o período de quarenta dias no deserto passados pelo messias em peregrinação e jejum, desafiando e vencendo as privações do corpo e da alma (para algumas tradições e alguns capítulos do Novo Testamento, também as tentações do inimigo da humanidade, o diabo).

 Entretanto, antes de tudo isso, a festa da Páscoa tinha significado também de libertação, renascimento e fertilidade.

Há relatos históricos de sua celebração próximo desta época do ano. Um período marcado por festas pagãs relativas ao fim do inverno e início da primavera no hemisfério norte.

As variações atuais na data levam em consideração os ciclos solares, como acontece com o próprio calendário gregoriano (cuja instituição, no entanto, se deu por razões comerciais e não religiosas). Assim, a Páscoa cristã é comemorada no primeiro domingo de lua cheia depois do equinócio de primavera (de outono, no hemisfério sul). Já as comemorações da Páscoa judaica têm início na primeira lua cheia do mesmo equinócio. O início do Pessach e a Páscoa cristã podem cair no mesmo dia, mas isso dificilmente ocorre.

Páscoa também marca o início do calendário bíblico de Israel e delimita as datas de todas as outras festas marcadas na Bíblia. Pessach (ou pêssar) em hebraico significa literalmente “passagem”. Deus teria mandado passar seu anjo da morte sobre as casas dos filhos de Israel, cativos no Egito, e os poupou a todos, enquanto matava os primogênitos egípcios, cujo rei se recusava a libertar os hebreus. Além disso, teria sido marcada pelo próprio Deus como tempo de recomeço do ciclo anual e data eterna da lembrança da libertação dos filhos de Israel do jugo egípcio (conforme Êxodo 12).

Para o povo hebraico, portanto, é uma data tanto de memória da libertação quanto do nascimento da própria identidade.

Como o messias e todos seus apóstolos eram judeus, a nova religião (o cristianismo) procurou incorporar toda a simbologia judaica, com ênfase no ciclo de recomeço, sendo marcado pelo renascimento do próprio Deus feito carne e sua subida aos céus após o período de intenso sofrimento terreno. Espécie de versão nova, rediviva, de uma mensagem considerada pelos que crêem como eterna.

A simbologia é tão semelhante que, à ordem expressa de Deus do sacrifício de um cordeiro para os hebreus, no cristianismo o próprio Jesus Cristo é havido como o cordeiro a ser imolado.

Na idade média, entretanto, a significação relacionada à fertilidade pagã retornou. Vem daí a instituição do coelho como símbolo da festa e do ovo (aquilo que está por nascer, vida guardada por vir) como presente. De novo, por força da celebração de povos  sem tradição judaico-cristã à chegada da primavera e o culto a deuses representativos desse período, como Ishtar, deusa babilônica da fertilidade (ver quadro).

Curioso é que a libertação dos judeus do jugo egípcio se deu de maneira violenta, após uma série de pragas lançadas por Moisés (criado como rei pelo faraó, que não sabia da origem dele). A última delas, a descida do anjo da morte para assassinar cada primogênito egípcio (conforme descrito na Bíblia em Êxodo 12, versículo 12).

As simbologias judaica e cristã são tão semelhantes que, à ordem expressa de Deus do sacrifício de um cordeiro para os hebreus, no cristianismo o próprio Jesus Cristo é havido como o cordeiro a ser imolado

Além disso, o próprio renascimento de Cristo se dá após um ato de extrema violência a um homem que, segundo os relatos, só pregou bons sentimentos e atitudes, como, ironicamente, a não utilização da violência para o que quer que fosse. A isso, os judeus convertidos ao culto que daria origem ao cristianismo chamam de nova aliança de Deus com os homens.

Outra curiosidade advém do fato do período marcado pelo número 40 se repetir diversas vezes na Bíblia, tanto no velho quanto no novo testamento, sempre a marcar períodos de significação intensa.

Exemplos do Antigo Testamento passam pela história de Noé (Gênesis 7:4-12 e Gênesis 8:6). Durante o dilúvio, é o tempo transcorrido na arca, junto com a sua família e com os animais. Após o dilúvio, o patriarca e sua família passarão mais quarenta dias antes da embarcação tocar terra firme.

Na narrativa referente a Moisés, 40 dias é o tempo de sua permanência no monte Sinai – quarenta dias e quarenta noites – para receber diretamente de Deus a Lei, ou os dez mandamentos (Êxodo 24:18). O período no deserto, uma dura viagem para a terra prometida, cuja conclusão Moisés é proibido de conhecer por desobediência, dura quarenta anos  (Deuteronômio 8:2-4).

Antes dos reis, os judeus primitivos (povo tribal que era) instituíram juízes, como Débora (primeira e única) e Sansão. Essa época é considerada de paz e durou 40 anos (Juízes 3:11).

O profeta Elias leva quarenta dias para chegar ao monte Horeb, onde se encontra com Deus (I Reis 19:8). Os cidadãos de Nínive fazem penitência durante quarenta dias para obter o perdão de Deus (Jonas 3:4-5).

Quarenta anos duraram os reinados de Saul (Atos 13:21), e Davi (II Samuel 5:4-5) e de Salomão (I Reis 11:42), os três primeiros reis de Israel. O simbolismo do número quarenta também está presente em Salmos 95:10, referindo-se ao número de anos que o povo judeu caminhou pelo deserto. 

Fontes: Igreja Presbiteriana do Brasil, a Bíblia e livros sobre o tema (A História da Páscoa, de Ana Maria Machado; Páscoa Ontem e Hoje, de Luiz Gregório (editora Paulus) e consultas à Livraria Virtual Judaica.

 

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