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Cultura

Barra Direto / FERNANDA SOARES

05/08/2017 13:52:00

Israel Barbosa: 20 anos de histórias no candomblé

Arquivo / Assessoria

Uma das grandes, e mais importantes, heranças deixadas pelos povos africanos no Brasil foi o candomblé. O candomblé é uma religião de matriz africana cujo princípio está apoiado na ideia de que cada pessoa tem um ancestral que deve cultuar o orixá. No Brasil, surgiu depois da chegada dos africanos em condição escrava, trazidos pelos navios entre os séculos XVI e XIX. A palavra Candomblé seria uma modificação fonética de “Candonbé”, um tipo de atabaque usado pelos negros de Angola, ou viria de “Candonbidé”, que quer dizer “ato de louvar, pedir por alguém ou por alguma coisa”. Uma outra opção seria a origem yorubana, que significa “festa”, ou o nome que se dá ao local onde são realizadas.

Nascido em São Miguel das Matas, na Bahia, Israel Barbosa dos Santos, 45 anos, mudou-se para São Paulo após o falecimento de sua mãe, em 1989. Em 1997, devido a um sério problema de saúde, Israel foi apresentado ao candomblé. “Naquele ano tive ptose renal, um problema muito sério de saúde. Os médicos achavam que era câncer. Quando entrei no candomblé logo descobri o que eu tinha e fui curado”, conta Israel. Hoje o médium é sacerdote afro, devidamente federado na Federação Nacional de Culto Afro Brasileiro, n 3.477 e atende clientes da Alemanha, Portugal, Estados Unidos e do Brasil inteiro.

Israel conta que desde sempre sentiu sua mediunidade. Segundo ele, existia um medo muito grande de trilhar os caminhos do candomblé. Com 7 anos de idade ele já via vultos, previa o nascimento de animais e vivenciava situações que assustavam a família. “A falta de conhecimento é um problema, pois nos tornamos ignorantes por não conhecer algo direito. Na época eu achava que era uma religião diabólica”, conta Israel.

Barra Direto: Qual o principal objetivo do candomblé?

Israel Barbosa: O objetivo é promover os bons costumes, a religião, difundir a sua cultura, mostrar seus rituais. O candomblé é social, tem ajudado muita gente a ter uma vida livre do crime e drogas, ensina o respeito ao ser humano. Somos uma religião de consciência, devemos cultuar e amar nossa natureza, afinal tudo vêm da natureza. Reverenciamos a natureza em sua essência. Para entrar no candomblé é preciso ser escolhido.

Barra Direto: Como é o candomblé no Brasil atualmente?

Israel Barbosa: Hoje no Brasil seguir o candomblé é extremamente complicado, é muito difícil porque é uma religião antiga, que evoluiu pouco em sua essência. Ainda sofremos muito preconceito.

Barra Direto: Quais as dificuldades enfrentadas na religião?

Israel Barbosa: A maior dificuldade hoje dentro do candomblé é a intolerância religiosa que sofremos. Por exemplo, há um tempo atrás tivemos o caso da mãe Gilda da Bahia. A Igreja Universal publicou, em seu jornal, que a mãe de santo explorava o bolso de seus clientes e que era uma charlatã. Utilizou-se na época uma foto dela com uma traja preta. O estado de saúde  da dona Gilda foi agravado por conta das notícias. A filha dela entrou na Justiça e saiu vitoriosa, com a condenação da igreja. As pessoas precisam saber dos exemplos de intolerância religiosa no Brasil. Não é justo que se difame tanto uma religião tão bonita, com uma cultura e liturgia tão ricas. Nós respeitamos as religiões dos outros, afinal vivemos em um país livre. Mas a justiça ainda é muito falha.

Barra Direto: O que você acha que pode melhorar?

Israel Barbosa: Acho que precisamos passar por uma reeducação, como foi feito em 1980. Na época, devido a disseminação do HIV, o uso de navalhas, que era feito em grupos, passou a ser individual. Depois da constituição de 1988 mudou-se muita coisa no Brasil, mas ainda é preciso mudar e melhorar muita coisa. É preciso levar o nome da nossa cultura mais a frente! Dentro do próprio candomblé as pessoas vivenciam o preconceito, elas têm vergonha de usar roupas típicas ou usar as guias. Precisamos pensar positivo, passar por um processo de esclarecimento e divulgação dessa cultura. O candomblé é uma religião africana que surgiu a mais de mil anos. Ela passou por várias transformações e adaptações até ser trazida para o Brasil pelos escravos. Eu sou contra, por exemplo, a entidade beber e fumar muito no médium, contra também colocar oferendas em encruzilhadas, uma vez que temos os locais adequados para as oferendas.

Barra Direto: Você já sofreu preconceito por ser do candomblé?

Israel Barbosa: Sofri preconceito sim. Por exemplo, em dezembro do ano passado, um cidadão teve acesso ao meu telefone e me desacatou muito, me caluniou, me desmerecendo dizendo coisas horríveis. Mas logo tomei as devidas providências e todo o caso foi encerrado. Eu não admito que o preconceito impere! Se outras religiões têm o direito de fazer caminhadas e divulgar seus trabalhos abertamente, nós também podemos! Temos esse direito garantido pela lei, pela constituição federal. Se houver intolerância religiosa temos o código penal para punir isso. Temos onde gritar por ajuda. Ainda precisa melhorar muito, as coisas deveriam ser justas para todos, a justiça que te condena é a mesma que te absolve, deveríamos ter um país mais igualitário.

Barra Direto: O que são os orixás?

Israel Barbosa: O orixá é a parte pura da natureza. São 16 orixás cultuados no Brasil, que vai de Exu a Oxalá. Cada um deles atua em sua própria simbologia, possuindo caraterísticas próprias, representações e ocupações; a eles também são atribuídos dias específicos da semana para os cultos nos terreiros. Exu é o primeiro dos Orixás, é um mensageiro do Orixás, executando o que lhe é comandado, independente das consequências; Oxóssi é o senhor das matas, o orixá da fauna e flora, que protege os animais; tem Ogum que é o orixá do caminho; tem o Omolu que é o senhor da vida e da morte, das doenças e da saúde; Ossaim que é o orixá das ervas, que tem o poder da cura; tem Iansã que é o orixá das tempestades, dos ventos; Oxum é o orixá da fertilidade, das águas doces, sem Oxum não há vida; tem Iemanjá que o orixá dos mares, oceanos, considerada como mães dos orixás e dos filhos. Temos também Obá, uma amazona; Ewá que é uma noviça, e só existem filhos de Ewá caso as mulheres forem virgens. Temos Nanã, o orixá do barro, é a própria morte em si; tem Logun Edé, filho de Oxum e Oxóssi; temos Oxumarê que é o orixá da riqueza e fortuna, sendo também conhecido como o ciclo da vida; Xangô é representado na igreja católica pelo santo São Jerônimo, sob a personificação da justiça; temos os erês, que são orixás crianças representados por São Cosme e Damião; e temos Oxalá, que é o supremo, o firmamento. É o maior e mais conhecido de todos os orixás.

Barra Direto: O que são os búzios? Há quanto tempo você trabalha com isso?

Israel Barbosa: Jogo búzios a 14 anos. Comecei com cartas, porque não podia jogar até ter a permissão do orixá. O jogo de búzios é um oráculo, ondem respondem os 16 orixás. E nesse oráculo temos dois casos, os que jogam por intuição, como é o meu caso, e aqueles que jogam por odus. Existem 256 odus, e no Brasil são cultuados apenas 16. Odu significa destino e cada pessoa possui um que rege sua vida. Eu atendo serviços nas áreas de saúde, sentimental e  espiritual, tudo para ajudar o ser humano a ter uma vida mais tranquila e segura.

Barra Direto: Qual a sua opinião sobre os sacrifícios de animais realizados nas cerimônias?

Israel Barbosa: Eu acho que os sacrifícios podem ser feitos sim, se realizados com critérios, amor e carinho. Não podemos deixar que as pessoas que comem churrasco, peixes em muquecas, frangos assados ou ensopados, possam criticar o uso do sacrifício animal dentro da religião. Se for proibir o uso de animais dentro do candomblé deve-se proibir também que o ser humano de comer carne, de qualquer espécie. Eu respeito quem´vegetariano mas peço que respeite também a minha religião. Porque quando se sacrifica um animal, esse animal é limpo, tira-se as partes de oferendas aos orixás, e o restante é servido como alimento para a casa, nada é jogado fora. É balela falar de sacrifício de animal quando temos indústrias que matam animais, em grande escala, e lucram muito com isso.

Barra Direto: O que mudou na sua vida com o candomblé?

Israel Barbosa: Me sinto extremamente realizado e feliz. Hoje tenho autocontrole, sou menos ansioso, não foi uma evolução rápida, fui mudando com o tempo. Fui vendo a importância de você respeitar o próximo e a natureza. Hoje, graças a Deus, sou uma pessoa equilibrada, que consegue lidar com os problemas com muita tranquilidade. É o que mais importa, eu tenho paz, tenho certeza de que estou lutando para fazer o melhor para todos. O preconceito religioso é um absurdo. Ainda vivemos numa época de uma ditadura disfarçada. As religiões que possuem um poder aquisitivo maior, tentam intimidar o candomblé, acusando que nossos deuses e orixás são o diabo.

Barra Direto: Qual a sua opinião sobre as demais religiões?

Israel Barbosa: Eu admiro muito a Igreja Batista, a igreja Testemunha de Jeová e a Adventista do Sétimo Dia. São igrejas sérias, que, dentro do segmento religioso, se preservam, não entram em escândalos. As demais eu realmente tenho algumas coisas contra, principalmente as que prezam muito pelo dízimo. Na bíblia, no livro de Malaquias, diz que o dízimo deve ser dado em alimentos e não em dinheiro. As campanhas chegam a arrecadar milhões, e a pior parte é que vários investem neles mesmo, comprando jatinhos e mansões. Só podemos lamentar. Se o povo aprova esse tipo de conduta, paciência.

Barra Direto: Como conseguir seguir os próprios caminhos num mundo tão conturbado?

Israel Barbosa: Não podemos desistir nem parar. Temos que seguir em frente, fazer sempre o melhor pra nós mesmo e pra quem está em nossa volta. Porque o mundo pouco vai mudar, a tendência é piorar. O homem se destrói por causa do poder, do dinheiro, ganância, egoísmo e prepotência. São coisas que não elevam. Mas não devemos ter medo de viver, senão não vamos aproveitar nada. É necessário buscar sempre um apoio espiritual para que essas coisas tão negativas não influenciem nossas vidas.

Para agendamento de consultas espirituais, entrar em contato nos números: (11) 94338-3129 ou (11) 96121-7535 (whatsapp).

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Águas de Barra do Garças
Elaine Souza
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